Transparência, transferência, vestígios...

“Eu te invento, ó realidade...”
Clarice Lispector


A obra de Gabriela Brasileiro, a um primeiro olhar, encanta pela magia das cores, que nos remete a um mundo de sonhos. No entanto essa magia é contrastada com seus personagens, tão reais, quase presos dentro desse mundo criado pela artista para lhes servir de morada.
Tudo isso faz sentido quando se conhece o processo de criação de suas obras, que reúne um arquivo-memória de fotografias, e é dele que retira a imagem a ser pintada, criando agora um novo contexto para sua inserção. E chama-nos a atenção a expansão que essas imagens adquirem, em suas novas condições de recepção, criadas por apropriações incomuns e por colagens visuais. Por meio dessas colagens, Gabriela busca estruturar o projeto de sua pintura, reunindo imagens de uma realidade cotidiana, que dificilmente estariam juntas em outras situações. Elas são como estratégias de afloramento e estilização, e não existe portanto, um desejo de interpretação que direcione para um único lugar. Apesar de a interpretação ser livre, a colagem é previamente planejada, feita tanto por montagens no computado como por esboços em um caderno pessoal. A imagem escolhida para ser pintada é completada por camadas, transparências e sobreposições.

Tudo isso é permitido pela tinta acrílica, desde as suaves transparências da aguada a densas formas gráficas e planas. São essas possibilidades que criam o meio em que as figuras se assentam, muitas vezes construído por aguadas, transparentes ou densas, criando ambientes de profundidade infinita. O primeiro plano é formado por figuras humanas construídas com pinceladas mais gráficas, já que a tinta acrílica não permite o degrade oferecido pela tinta a óleo. Num plano intermediário, entre as volumosas aguadas e as figuras humanas, surgem as formas transferidas e repetidas pelo estêncil ou pela serigrafia. Essas repetições se mostram fragmentadas, incompletas, tensionadas pela ameaça de sua própria ausência e pelo limite do sentido.
Cada significado pode e é interpretado de diferentes maneiras, sendo as imagens, responsáveis por essas possibilidades de criação de sentidos. Há símbolos concretos que compõe um mundo de referencias, principalmente de artefatos femininos como sapatos, roupas, bordados e estampas, mas que perdem seu significado usual sendo substituídos por livres associações, já que se inserem fora de um contexto original.
O objetivo da artista é construir um mundo de sonhos e isso se faz possível, seja pelas cores marcantes ou pelos vestígios espalhados. O momento capturado pela fotografia é agora recontextualizado, a realidade reinventada.


Lavínia Resende Passos
Mestranda em Teoria de Literatura pela UFMG

Encontos

As pinturas desta nova série ainda carregam as grandes dimensões características do trabalho.. Existem casos em que as dimensões não são tudo e as figuras não provocam nenhuma emoção. Mas as grandes proporções da série Encontos aumentam o poder da imagem acentuando a interação espectador/ obra, obra/espectador.
A obra final se constrói através da pintura, da serigrafia e do estêncil num misto de tinta acrílica e têmpera.Os contos de fadas são a grande influência nesse processo de construção das pinturas. Uso pequenos trechos destes contos para intitular cada uma delas. Em pintura existe algo como uma ponte misteriosa entre a alma do espectador e a alma dos personagens.
Portanto, sugiro na pintura percursos e conceitos transpostos a se projetarem em cada espectador de uma maneira muito particular. Surgindo assim a identidade e o espelho como caminhos e descaminhos referente a vivência de cada um. Cada pintura contém uma simbologia peculiar, um pequeno fio para se decifrar...

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